Saúde mental e segurança do trabalho entram em novo momento
NR-1 passa a incluir fatores de riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais; dados apontam aumento de afastamentos por transtornos mentais
A saúde mental dos trabalhadores ganhou destaque nas discussões sobre segurança e prevenção de riscos no ambiente profissional durante o seminário “Entre a norma e o real: desafios e perspectivas do mundo do trabalho”, realizado nesta quinta-feira (20) e sexta-feira (21), na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte.
Um dos principais temas do encontro é a aplicação da Norma Regulamentadora 1 (NR-1), que passou a incluir os fatores de riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais. A norma entrou em vigor em 26 de maio de 2026 e estabelece que as empresas devem identificar riscos relacionados à saúde e à segurança dos trabalhadores e adotar medidas para controlá-los.
Aumento dos afastamentos por transtornos mentais
Dados da Previdência Social apresentados no debate mostram que foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais em 2025. O número representa aumento de 15,66% em comparação com o ano anterior.
Entre os diagnósticos mais frequentes estão os transtornos de ansiedade e os episódios depressivos.
Os dados, entretanto, não significam que todos os afastamentos tenham sido provocados diretamente pelas condições de trabalho. Ainda assim, o crescimento reforça a importância de discutir fatores relacionados à organização e ao ambiente profissional.
Excesso de trabalho e assédio estão entre os riscos
Segundo o auditor-fiscal do Trabalho Airton Marinho, que mediou o debate sobre o tema, diferentes situações presentes no cotidiano profissional podem afetar a saúde mental.
Entre os fatores citados estão:
- excesso de trabalho;
- realização frequente de horas extras;
- trabalho noturno;
- violência no ambiente profissional;
- bullying;
- assédio;
- metas excessivamente elevadas;
- sobrecarga dos trabalhadores.
A NR-1 prevê que as empresas adotem programas para reduzir esses riscos. A avaliação deve levar em consideração as características de cada ambiente de trabalho e estar integrada ao processo de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.
Metas excessivas também podem provocar adoecimento
A discussão apresentada no seminário destaca que a pressão por produtividade pode produzir consequências para além do estresse cotidiano.
Em setores como telemarketing, por exemplo, a organização do trabalho deve considerar medidas para evitar sobrecarga. No setor bancário, metas muito elevadas também podem representar fator de risco para trabalhadores.
A preocupação se estende a sistemas de produção nos quais os funcionários são submetidos a cobranças excessivas. Segundo especialistas citados pela Agência Brasil, situações desse tipo podem aumentar o risco de acidentes e de outros problemas relacionados à saúde.
Aplicação das sanções está suspensa
Embora a NR-1 tenha entrado em vigor em maio, a aplicação de multas e outras sanções relacionadas especificamente à inclusão dos riscos psicossociais está suspensa.
Em junho, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) havia suspendido por 90 dias os efeitos da norma nessa parte. Nesta semana, o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) referendou decisão do ministro André Mendonça que suspendeu a aplicação de multas e outras sanções relacionadas aos fatores de riscos psicossociais no gerenciamento dos riscos ocupacionais.
Neste período, a fiscalização deve priorizar orientação, instrução e notificação das empresas sobre a necessidade de adequação.
Empresas precisam avaliar realidade de cada ambiente
De acordo com as orientações do Ministério do Trabalho e Emprego, não existe um único questionário ou metodologia obrigatória para todas as empresas.
A avaliação dos riscos deve considerar as características específicas de cada organização e fazer parte do processo de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, em conjunto com as demais normas de segurança e saúde no trabalho.
A proposta é identificar situações que possam prejudicar os trabalhadores e estabelecer medidas preventivas antes que os problemas provoquem consequências mais graves.
Prevenção deve fazer parte da rotina
Para especialistas, as empresas já deveriam desenvolver iniciativas voltadas à redução da pressão excessiva, prevenção da violência e melhoria das condições de trabalho.
A nova abordagem amplia a atenção para aspectos que nem sempre são visíveis, mas que podem impactar diretamente o bem-estar e a capacidade dos trabalhadores.
A prevenção pode envolver mudanças na organização das atividades, revisão de metas, controle da sobrecarga e criação de mecanismos para enfrentar situações de assédio, bullying e violência.
Saúde mental entra definitivamente na agenda da segurança do trabalho
A inclusão dos riscos psicossociais na NR-1 representa uma mudança importante na forma como empresas e órgãos de fiscalização devem avaliar a segurança no ambiente profissional.
O avanço das discussões ocorre justamente em um cenário de crescimento dos afastamentos relacionados a transtornos mentais. O desafio agora é transformar a identificação dos riscos em medidas efetivas de prevenção e proteção.
Enquanto a aplicação das sanções permanece suspensa, o debate sobre saúde mental no trabalho ganha espaço entre empresas, trabalhadores, especialistas e órgãos públicos.
Fonte: Agência Brasil, por Alana Gandra, com informações apresentadas no seminário realizado na UFMG.



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